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De Modesto de Abreu para Alceu Amoroso Lima
15 de julho de 1957 · Rio de Janeiro, Brasil · 2 min de leitura
Modesto de Abreu escreve ao Dr. Alceu Amoroso Lima comunicando que, vencendo relutância e escrúpulos, inscreveu-se como candidato à vaga aberta na Academia Brasileira de Letras com o falecimento de Cláudio de Souza (cadeira nº 29, ligada à literatura teatral). Explica que sempre acreditou que somente grandes escritores deveriam integrar a Academia, razão pela qual hesitava em candidatar-se. Contudo, a morte de seu amigo Cláudio de Souza — ocupante de uma cadeira dedicada à literatura teatral — levou-o a considerar sua candidatura menos incongruente, ainda que reconheça humildemente não poder ombrear-se com Martins Pena, Artur Azevedo ou o próprio Cláudio de Souza. Descreve sua decisão como um 'alea jacta', cruzando o Rubicão ao entregar sua inscrição no Petit Trianon. Pede ao destinatário que o acolha com sua costumeira simpatia.
Meu eminente Confrade e prezado Mestre Dr. ALCEU AMOROSO LIMA :
A semana passada, vencendo teimosa relutância e velhos escrúpulos, entreguei ao chefe da Secretaria da Academia Brasileira meu pedido de inscrição como candidato à recente vaga aberta na Ilustre Companhia com o falecimento do acadêmico Cláudio de Souza. E ainda agora me pergunto a mim mesmo como foi que tive coragem para adotar semelhante decisão. Todo escritor que publica suas obras, e portanto procura obter notoriedade, namora a Academia, ainda mesmo que procure afetar o contrário. Não posso constituir exceção à regra. Mas sempre entendi que sous la coupole somente deveriam entrar as personalidades que, como é o caso de V.Ex., se constituíram em lídimos expoentes de um ou mais departamentos das letras, que sejam grandes escritores enfim. E, assim pensando, sempre entendi que não me assistia o direito de pleitear um lugar na Casa de Lúcio e Machado.
Agora, porém, com o desaparecimento do meu velho e querido amigo Dr. Cláudio de Souza, ocupante de uma cadeira preferencialmente dedicada à literatura teatral - com um hiato de poesia - pareceu-me que minha apresentação como concurrente haveria de afigurar-se menos chocante e contraditória. Não é que afague a pretensão de ombrear-me com um Martins Pena, um Artur Azevedo ou um Cláudio de Souza em matéria de realizações dramáticas. O teatro é gênero dos mais difíceis, e o que nele já me foi dado realizar não passa de ensaios de aprendiz. Por isso mesmo, porque estudo e procuro aprender no exemplo dos mestres, tirei forças de minha fraqueza e, sem medir consequências, proferi o alea jacta e transpus o Rubicão, ou seja o portão do Petit Trianon, para inscrever-me candidato à cadeira nº 29.
Fazendo-lhe essa comunicação e esperando que possa V.Ex. acolher-me com a costumeira simpatia, subscrevo-me com alta estima e consideração.
Modesto de Abreu
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