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De Remetente desconhecido para Alceu
4 de dezembro de 1950 · Washington, D.C., U.S.A. · 3 min de leitura
O remetente, escrevendo da Delegação Brasileira à OEA em Washington, informa Alceu que a questão de encontrar-lhe uma residência foi motivo de grande preocupação. Explica que a oferta anterior da casa na Avenida Nebraska fracassou porque a proprietária desistiu do negócio. Relata que sua esposa e a esposa de Jayme mobilizaram-se prontamente e que, desta vez, ele próprio tomou a iniciativa de assinar um contrato de um ano para uma casa em Cathedral Avenue, a partir de 1º de janeiro, pedindo que Alceu não leve a mal a decisão tomada em seu nome. Descreve a casa em detalhes: quatro quartos, dois banheiros, duas salas, cozinha, porão cimentado, lavanderia, garagem, mobilada com louça, talheres e geladeira, aluguel de US$175,00 mensais — considerado o mais baixo possível. Destaca a localização privilegiada: próxima a uma igreja, comércio, transporte para o centro, vizinha ao professor Fenwick e a Luis Carlos Mancini (ambos com automóvel, o que facilitaria o trajeto diário de Alceu à União Pan-Americana), e com bons colégios nas proximidades para os filhos. A página termina abruptamente ao iniciar o parágrafo sobre o pagamento do aluguel.
Meu caro Alceu,
A questão de uma casa para você muito nos tem preocupado, porque seria quase um desastre não encontrar aqui, ao chegar, uma residência conveniente.
Infelizmente, fui um pouco apressado em minha carta anterior, ao supor que lhe podia oferecer a casa da Avenida Nebraska. O fato é que, depois de tudo apalavrado, a proprietária resolveu desfazer o negócio.
Nossa gente, porém (especialmente, minha mulher e a do Jayme), pôs-se em campo sem demora e desta vez lhe posso anunciar alguma coisa definitiva. Digo definitiva porque me vi obrigado a tomar uma casa para você e assinar o contrato de um ano, a partir do primeiro de janeiro próximo. Espero que não leve a mal o meu ato, tendente a salvaguardar os seus interêsses e apoiado pelos amigos que se interessaram pelo caso.
Essa outra casa está em Cathedral Avenue, quase defronte da do professor Fenwick e ao lado da do Luis Carlos Mancini. O aluguel mensal é de US$175.00, - o que tôda a gente aqui acha ser o mais baixo possível. Não é nova, mas tem quatro bons quartos e dois banheiros, duas salas, cozinha, porão (cimentado), lavanderia e garagem. Está mobilada (os móveis não são novos) e tem louça e talheres para o serviço diário, além de trem de cozinha e excelente geladeira. O ponto é excelente. Está a pouca distância de uma igreja, de um comércio local e de condução para o centro. Aliás, creio que sua ida diária à União Panamericana estará muito facilitada pela vizinhança do Mancini e do Dr. Fenwick (ambos possuem automóvel). Para os meninos, disporá você de bons colégios, na proximidade.
O pagamento do aluguel (é costume, aqui) será pago no começo de cada
mês, – isto é, antecipadamente. Para garantia do contrato, o proprietário exigiu o pagamento do primeiro mês e tive que adiantar a quantia respectiva. Não se preocupe, por enquanto, com êste pormenor, que será regularizado depois de sua chegada. O proprietário também me exigiu uma carta em que lhe garanti que você fará o depósito de cem dólares, logo que chegar. Por êstes dias, espero poder remeter-lhe cópia do contrato.
Recebi, nos últimos dias, suas cartas de 26 e 28 de novembro. Fiquei muito satisfeito de saber que o Itamaraty se decidiu a ajudá-lo um pouco.
Respondo ao questionário da última.
1) O endereço da União Panamericana é simplesmente o seguinte:
Pan American Union, Washington 6, D.C.;
2) Convirá acrescentar o seu nome, com o título que lhe vai corresponder: Director, Department of Cultural Affairs;
3) Não conheço o colégio a que se refere a Maria do Carmo, mas indagarei;
4) A situação está muito grave, mas ainda quero crer que a terceira guerra mundial não está à porta.
Por último e com relação a empregadas, – caso você não traga nenhuma, Olga tem promessa de uma, espanhola, por cem dólares mensais; mas tal promessa não é, por enquanto, muito segura. Diz minha mulher que talvez fôsse preferível trazer você alguma dali criada, contanto que seja de absoluta confiança.
Com os meus mais sinceros votos de Boas-Festas, para você e os seus, receba um apertado abraço do seu velho amigo
[assinatura: Hildebranda Lacerda]